Ficheiros Secretos
Histórias por detrás das fachadas
Luís Osório, SOL , 12-03-2010
Luís Osório ouviu Helena Roseta e escreveu sobre uma sua história.
Hoje não lhe vou contar segredos de bastidores, denunciar acordos políticos ou descrever situações que alteram o perfil de eminências pardas deste ou de outro qualquer regime. De uma conversa com Helena Roseta surgiu a vontade de fazer algo um pouco diferente; algo que nos aproximará, por alguns parágrafos, do que se passa nos subterrâneos de uma grande cidade.
É das traseiras de Lisboa que lhe vou falar, mas os gritos mudos não são um exclusivo da cidade das sete colinas – no Porto, Luanda, Maputo ou Funchal há centenas de pessoas que combatem pela sobrevivência. Ao contrário dos sem-abrigo têm um tecto e uma desvantagem: ninguém no lado luminoso das cidades dá pela sua presença e desespero. Não contam.
Puxo por Manuel Alegre e a sua candidatura a Belém, provoco-a com o seu sentido libertário, mas Helena parece obcecada com o que não esquece. Os problemas que resolve parecem esconder outros mais graves; um peso que alguns a aconselham a não ter, mas que ela insiste em ver como seus.
Há poucos dias em que não pense no último Natal. Não por algum motivo afectivo, mas por ter recebido um telefonema urgente na véspera. Na antiga Zona J, rebaptizada agora como Bairro do Condado, muitos dos moradores tinham acabado de declarar guerra à Câmara. As obras para eliminar o “corredor da morte” (passagens apertadas entre prédios onde se traficava droga e ajustavam contas) levou a que se fizessem reajustamentos urbanísticos e, como acontece tantas vezes, algumas das obras atrasaram-se. Dezenas de famílias, em plena véspera de Natal, viam as suas casas alagadas por culpa da autarquia.
Chelas estava em pé de guerra e havia quem ameaçasse este mundo e o outro. Depois do telefonema ela lá foi – sem nada para oferecer para lá da coragem de dar a cara e assumir as responsabilidades. Os carros da comitiva passaram pelo burguês bairro do Areeiro e por avenidas da classe média e desceram ao vale onde tantos desesperavam por respostas. A reunião começou com gritos e acusações, a vereadora propôs um método dali para a frente, disse que a responsabilidade era da autarquia e que ela estava ali, que os respeitava e ouvia.
Se mais nada acontecesse a história pareceria igual a tantas outras; porventura nunca mais a memória de Helena regressaria ao Bairro do Condado. É que os minutos foram passando, as acusações descendo de tom e à despedida um grupo de pessoas rodeou a vereadora e desejou-lhe um Feliz Natal e agradeceu a sua prova de respeito. A seguir voltaram para as casas alagadas e nunca mais escutámos os seus gritos. No caminho de volta para casa, outra vez de regresso aos bairros burgueses, Helena deixou de controlar a memória. Não há dia que ela não volte àquele sítio.
Lisboa é uma cidade envelhecida. Não só pelo número de reformados, mas também pela idade das casas – os edifícios têm 58 anos de idade média. Cresce o número de excluídos que nas estatísticas não estão equiparados aos mendigos – porventura sabe que existem ainda 1 500 casas habitadas sem casa de banho? Que quase 10 mil pessoas continuam a fazer as necessidades num balde?
E também há quem viva em antigos palácios arruinados e a cair de podre. O Palácio da Dona Rosa, em Alfama, é um caso parecido com outros. No passado mês, vinte e seis moradores foram realojados pela Protecção Civil porque Helena Roseta foi alertada que o edifício podia cair a qualquer momento. Outra reunião, a maioria das pessoas a não querer sair - «não cai coisa nenhuma, é uma invenção da Câmara» - e a vereadora a argumentar que não podia arriscar.
Por estranho que lhe possa parecer, o fim das barracas em Lisboa não nos libertou das favelas – só deixaram de estar expostas aos nossos olhos. Em alguns casos, como neste, as favelas podem existir dentro de palácios setecentistas.
A política também é isto. Não se faz só de corredores, de boys, perversidades e cálculos de curto prazo. A política também é feita de pessoas que se preocupam; como as igrejas não são apenas feitas de fausto e opulência. Há políticos que telefonam para a administração do Metro, nas noites de maior frio, para que não se esqueçam de deixar as portas abertas de madrugada. As cidades têm gente boa que se preocupa com quem está em desespero, é talvez por aí que possamos recomeçar.
Para acabar conto-lhe três pequenas histórias sobre o silêncio. Vivi-as há uns anos; numa reportagem sobre os velhos moradores do célebre Casal Ventoso. Não me recordo delas muitas vezes, mas tenho-as comigo para sempre, partilho-as agora.
São três mulheres de idade e todas me agarraram na mão e pediram que ficasse mais um pouco. A primeira mostrou-me as sombras do seu marido desaparecido e de um filho sucumbido à heroína. Quando a confiança chegou levou-me ao quarto e tirou um vestido branco, impecavelmente guardado num armário com bolas de naftalina - «Este é o vestidinho que vou levar para o meu velório, é bonito não é?».
A segunda mulher parecia normal. Na associação de moradores ajudava os mais velhos no que necessitavam, posou para as fotografias de Augusto Brázio e contou anedotas. Depois levou-me à barraca onde morava, ouviam-se vozes na divisão onde dormia e a senhora normal dirigiu-se a elas e respondeu. Fui ter com ela e interrompi a animada conversa com o seu rádio - «Peço-lhe desculpa, ele está sempre a falar e eu não o gosto de deixar muito tempo sozinho».
Com a terceira apeteceu-me ficar. Com ela permaneci de mão dada, a escutar lições de vida e totalmente incapaz de qualquer pergunta. Falou-me dos seus filhos, todos bem na vida, depois mostrou-mos com orgulho sentido. Da sua carteira retirou uma família sentada numa mesa bem posta, a imagem de um anúncio cortado de uma revista - «São bonitos os meus netos, eu sei que são. E sobretudo felizes».